Especialistas alertam para risco na premiação de policiais no Rio de Janeiro por apreensão de fuzil.

Especialistas em segurança pública têm opiniões divergentes sobre a recente decisão do governo do Rio de Janeiro de oferecer uma recompensa em dinheiro para policiais que apreenderem fuzis. O decreto, publicado nesta segunda-feira (21), estipula o valor de R$ 5 mil por arma retirada de criminosos. Embora alguns especialistas vejam a medida de forma positiva, acreditando que ela estimulará o trabalho policial e a retirada de armas de circulação, outros têm preocupações quanto aos possíveis efeitos colaterais desse tipo de gratificação.

O antropólogo Paulo Storani, ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) e consultor do filme “Tropa de Elite”, considera a nova política uma gratificação por resultado que incentiva os policiais a se arriscarem diariamente. Para Storani, o decreto corrige uma antiga prática em que os fuzis apreendidos eram apresentados de forma fracionada para obter pagamentos diferenciados.

Por outro lado, o coronel Ubiratan Ângelo, ex-comandante-geral da PMERJ e atual coordenador de Compliance da ONG Viva Rio, vê pontos positivos e preocupações na decisão do governo. Ele avalia como positivo o fato de o estado enfatizar que o armamento de guerra é um dos principais problemas da segurança pública, ao invés das drogas. No entanto, ele teme a possibilidade de confrontos nas comunidades mais vulneráveis, onde os fuzis estão concentrados, e ressalta a importância de ações governamentais para impedir que essas armas pesadas cheguem às favelas.

Além disso, Ângelo também alerta para a corrupção policial e o aumento do valor dos fuzis no mercado ilegal, caso não haja um controle efetivo sobre a atividade dos policiais. Ele ressalta a necessidade de combinar a estratégia de recompensar a apreensão de fuzis com ações de prevenção, como cercos nas estradas para evitar que as armas cheguem às áreas urbanizadas.

Outra crítica à decisão do governo vem da antropóloga e gestora pública Jacqueline Muniz. Ela acredita que o decreto repete erros do passado, referindo-se à chamada “gratificação faroeste” criada em 1995, que premiava policiais por atos considerados de bravura. Muniz argumenta que premiar apenas a apreensão de fuzis favorece um grupo de policiais com informações privilegiadas, deixando de fora aqueles que atendem às demandas da população e trabalham duro no combate ao crime.

Segundo Muniz, nenhuma polícia consegue manter um saldo operacional crescente, pois as apreensões de armas geram uma escassez temporária de recursos para o crime. Ela acredita que é necessário implementar um programa de avaliação de desempenho policial que leve em conta todas as ações realizadas pelos policiais antes, durante e depois das ocorrências, em vez de recompensar apenas a apreensão de armas.

Em resumo, a medida do governo do Rio de Janeiro de recompensar policiais pela apreensão de fuzis dividiu opiniões entre os especialistas em segurança pública. Enquanto alguns acreditam que ela incentivará o trabalho policial e a retirada de armas de circulação, outros temem a possibilidade de confrontos nas comunidades e alertam para o risco de corrupção policial e o aumento do valor dos fuzis no mercado ilegal. A implantação de um programa de avaliação de desempenho policial pode ser uma alternativa mais abrangente e justa para reconhecer o trabalho dos policiais e combater o crime.

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